segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Palco de Mudanças


Palco do Tetro Municipal do Rio de Janeiro - Rafaella Schumann
Sei que estou em mutação, e como não estaria?
Gente muda, se não muda é porque finge.
Abafa a mudança, para não ter trabalho de lidar com o novo.
E surpreende-me o estranhamento, que essas mudanças causam.
Como se não fosse natural, à toda gente, mudar seu caminho. E é, não é?
E o que fazer com o que ficou?
Eu deixo entrar pela pele, olhos, boca.
Deglutindo tudo, digerindo tudo,
Expelindo o que não serve-me mais.
Alimentando-me do mundo.
Libertando-me do mesmo.
Libertando-me da mesmice, da repetição.
E não confundam isso com a rotina, nada contra a rotina!
Uma coisa ou outra, contra aqueles que,
Perdem-se em frustrações.
Quero uma coisa à toa,
Um sonho sem roteiro final.
Uma ode à improvisação.
O que é a vida senão um ensaio aberto?
Pois bem, eu subo no palco!
Não faço-me de rogada.
Sei meu personagem de forma stanislaviskiana.
De dentro, da motivação.
Sinto o meu pulsar.
E abrem-se as cortinas.

domingo, 9 de outubro de 2011

Saudades


Saudade é coisa que me enche a alma
Saudade boa, do tipo que vem até às bordas dos olhos
Mas não machuca o coração
Muitas são as formas de dizer adeus
Sou grata por ter dito da maneira mais bonita
Com um sorriso plácido nos lábios e a certeza do reencontro marcado
Quando cheguei aqui, você me recebeu com o sorriso mais bonito que já vi
Neste dia prometi, que na hora de sua partida, retribuiria o alento
Em tempos de outras despedidas, nem sempre minhas,
Lembro muito de você e do nosso segredo confiado no olhar
Acordo de palavras não ditas, e ainda assim tão claras
Das quais nunca pude duvidar
Hoje revisito caminhos seus, alguns deles também meus
Como quem olha um álbum de fotos antigas
Vejo você tão cheia de cores e sons, por essas ruas,
Que por um instante posso pressentir sua chegada
Mas a hora marcada não é agora,
Tão pouco esse nosso lugar de reencontro
Espere por mim querida
Que por você escrevo e canto.

sábado, 8 de outubro de 2011

Quando Ela Dorme

mairuschka-xilogravura sobre papel - Federico de Aquino 


Você, que é tornado
Quando dorme se faz brisa
Você, grande e forte
No sono, é menina
Velando você,
A noite segue suave
Ainda que antes fosse
Festa e tempestade
Levo comigo seus sons mais íntimos
Na sua ausência, me preenchem os silêncios
Quero você, palavras e toques
E mais silêncio...
Porque só assim,
Quieta perto de mim
Você vai entender o que olhos não calam.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Inquietudes

Inquietudes - Rita Ventura 
http://ritaventura.wordpress.com/avis-rara-2011/ 


"meu pensamento ficou ai com você, mas não se apresse em devolver... dorme em paz e se esta faltar, avisa que mando mais". U.G.H.

Inquieta como poucos, ela já não cabe em casa.
Acorda cedo e o dia azul parece ainda mais azul.
Nada demais, ela só quer andar, olhar as pessoas e as coisas.
Anda por ruas que não conhece muito bem,
faz mapas metais dos seus passos,
mas sabe que estes vão sumir da memória em pouco tempo.
Cansa o corpo para aquietar a alma.
Mas nem sempre é possível.
A alma tem força tamanha que não se deixa vencer.
Volta á casa e se ocupa de coisa à toa,
banalidades que a distraem por um quarto de hora, nada mais.
A tarde cai, a noite vem ainda quente e ela volta á rua, busca o novo.
No bar, na praça, no cinema, o cenário é detalhe menor.
Por vezes cruza o olhar com outro olhar que passa,
e num instante imagina a vida por trás daquele olho.
E se visse seu próprio olhar passando ao lado, que tipo de histórias imaginaria?

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Sem Palavras

Varanda - Echer
http://www.mcescher.com/ 

Hoje eu sou sem palavras
Calo toda voz, e a minha também
Quero a varanda e o além dos olhos
Sem conforto ou coisa que o valha
Quero apenas sentir você junto à mim
Deixar cantar o acalanto e a noite cair

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Entre o Querer e o Gosto

  O dia se tornando noite, gravura de Sheila Wolk
http://cronicasdaregina2.blogspot.com/2010/07/je-vois-des-anges.html 


Quero você como quem quer se encontrar
Quero você como se me faltasse o ar
Quero você mas não quero ter que ganhar
Quero você e que você queira ficar

Gosto do som da sua voz e mais
Gosto da calma que ela me traz
Gosto do que ao meu corpo faz
Gosto de depois dormir em paz

Entre o querer e o gosto
Deixo solto o pensamento
Que me leva noite à dentro

Misto de desejo e sonho
Entregue num caminho outro
Cantando um sentido novo.

domingo, 2 de outubro de 2011

Mudanças

Gravura - Rosana Pascale


As coisas mudam tão rápido que
Olhos desatentos, ao se verem refletidos
no espelho, pela manhã
Julgam-se ainda os mesmos.


Eu já mudei, agora mesmo, foi só um instante e tudo mudou. Eu mudei de um jeito estranho. Mudei cantando como quem anuncia a primavera. Ainda assim, há em mim um tanto de que fui. Vou construindo um mundo a partir de mim. Há um mundo em mim. Nesse mundo de dentro vejo lembranças e sonhos, material orgânico que molda-me. Tira-me, a cada dia, mais uma máscara. Mostra-me a outra face, e depois mais uma e outras tantas, que chego a duvidar de suas formas. Então toma-me de assalto, esse infinito de dentro, que corrói e alimenta o que é tido como Eu. Havia um tempo sem horas, onde se podia ser qualquer coisa além de coisas a fazer. Esse era um bom tempo.



"Às vezes encontro você em meio à sonhos.
Às vezes fujo de você, tento esquecer." U. G. H.